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Quem Malhação representa?

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A “vilã” se joga da escada para atrapalhar um momento romântico do casal principal e, em outra cena, segue os apaixonados para dar um flagrante. Poderiam ser cenas do elenco adulto de qualquer novela, mas foram situações vividas pelos adolescentes da vigésima primeira temporada de Malhação. Há pouco mais de um mês no ar, a história mantém os índices mornos (em torno de 15 pontos) e repercussão fria das ultimas temporadas.

Escrita por Ana Maria Moretzsohn e Patricia Moretzsohn, ótimas em tramas leves e despretenciosas, essa fase de Malhação padece do mesmo mal das demais: está mais próxima de uma novela do que de uma história juvenil, e acaba não sendo nem uma coisa nem outra. E o pior: está muito longe do que pensam, de como vivem e da maneira de agir dos jovens hoje em dia. A trama adulta ainda é de facil digestão, mas a parte “adolescente” é recheada de momentos constrangedores, principalmente em sala de aula.

Grande parte da dificuldade em elevar o nível da atração, com discussões mais atuais, vem do horário em que ela é exibida, o que impede a abordagem de temas mais polêmicos, como aqueles tratados por algumas séries americanas destinadas a este público. Perto do que é mostrado por lá, Malhação é quase uma história infantil.

Segundo a Globo, o programa sobrevive por ser um celeiro de talentos e pela marca forte. Este ultimo argumento já não deve ser tão considerado assim, já que toda vez que uma nova temporada é anunciada, o público olha desconfiado e com pouco interesse em conferir o que virá, tamanhos os erros já cometidos. Dessa forma, Malhação está mais parecendo aquelas jovens senhoras que tentam ser menininhas, mas só causam constrangimento por onde passam.

O turbulento voo de Salve Jorge

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Salve Jorge estreou há aproximadamente sete meses com alguns obstáculos: o horário de verão, a última semana da propaganda política obrigatória nas grandes cidades, e, o mais grave, o fenômeno de repercussão de Avenida Brasil, novela anterior, com a qual foi constantemente comparada. A trama de Gloria Perez tinha a difícil missão de manter o sucesso da novela de João Emanuel Carneiro. Não conseguiu.

O problema é que Salve Jorge foi quase o oposto daquilo apresentado em Avenida Brasil: teve excesso de personagens, ausência de figuras carismáticas e uma vilã fraca, entre outros inúmeros tropeços. Para ver Salve Jorge era preciso voar, como a autora chegou a dizer algumas vezes no Twitter. Mas, para o público voar, é preciso primeiro conquistar a cumplicidade dele, coisa que Salve Jorge nunca teve. Quando o público assiste algo que tem realismo fantástico, ele sabe que vai se deparar com situações absurdas e está preparado para que aquilo aconteça. Ele até deixa passar um ou outro deslize em tramas ditas realistas (como Nina não ter guardado as fotos de Carminha em um pen drive, em Avenida Brasil), mas Salve Jorge foi uma chuva de incoerências (uma igreja virou um point 24 horas, a vilã mata com uma seringada no meio de uma festa e ninguém percebe, uma traficada jurada de morte pela máfia circula pelas ruas para pegar informações, só para citar alguns). Quando uma autora precisa usar as redes sociais para justificar os furos do roteiro de uma trama é porque a coisa não está legal. Para ver Salve Jorge era preciso voar em um foguete, apenas os balões da Turquia não eram suficientes.

Foi o país asiático que teve as tramas mais prejudicadas quando a audiência da novela ficou abaixo do esperado. O núcleo turco praticamente sumiu (junto com dezenas de personagens brasileiros), as músicas turcas foram reduzidas (um CD só com estas músicas seria lançado, mas foi cancelado) e muito pouco do país foi mostrado. O público já estava enjoado das viagens, nos dois sentidos, da autora (os costumes lembravam muito o dos países retratados em O Clone e Caminho das Índias). Mas não foi só o texto que deixou a desejar, a direção matou algumas cenas que podiam render mais e a edição foi uma das piores já feitas na Rede Globo, cheia de cortes grosseiros e trilhas fora do lugar, sem contar os erros básicos de continuidade. Salve Jorge acabou caindo na boca do povo, mas por suas incoerências, tornando-se uma novela que os telespectadores amaram odiar.

Um dos maiores (e poucos) acertos da produção foi a escalação de Nanda Costa, que causou estranhamento no início. A atriz conseguiu segurar bem o seu papel de mocinha suburbana e “engoliu” aquele que deveria ser o galã da história. Rodrigo Lombardi, mais pelo do texto do que por sua atuação, construiu um Théo que beirou o insuportável. Mas o maior pecado de Salve Jorge foram os desperdícios: de talentos (Natália do Vale, Nicette Bruno, André Goncalves…), causado pelo excesso de personagens e de histórias que não se entrelaçaram, e de uma trama central que tinha tudo para render muito mais, não fosse recheada de momentos surreais. Com tantos tropeços, nem o guerreiro São Jorge conseguiu salvar a novela, que termina com uma das menores audiências entre as atrações do horário.

5 motivos para o sucesso de Rainha da Sucata ontem e hoje

A reprise de Rainha da Sucata no Viva mal começou e a novela já é destaque nas redes sociais, o que também aconteceu quando Vale Tudo teve reexibição no mesmo canal e horário (00h15). A trama de Sílvio de Abreu já esteve algumas vezes entre os dez assuntos mais comentados do Twitter no Brasil. A produção marcou época e também foi marcada pela época, auge da lambada, ritmo representado na inesquecível abertura. Confira cinco motivos que fazem a produção voltar a ser vista e comentada cerca de 23 anos após a sua exibição original.

 1 – Regina Duarte e sua Maria do Carmo

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A heroína da história está longe de ser uma daquelas sofredoras que são enganadas facilmente. Maria do Carmo vai à luta, em interpretação forte e irretocável de Regina Duarte, que dá um show do começo ao fim da novela, tanto nas cenas em que a protagonista é guerreira como também nas sequências românticas.

2 – O núcleo cômico

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Mestre das novelas das sete, Sílvio de Abreu levou seu humor único para o horário das oito. Seus tipos populares caíram nas graças do público, que foi presenteado com a estreia de Marisa Orth e sua Nicinha, seu melhor papel em novelas até hoje; o inesquecível casal formado por Cláudia Raia, antológica, e Antônio Fagundes, em raríssimo momento de comédia; e ainda Aracy Balabanian como Dona Armênia, o papel de sua vida, que depois voltaria em Deus nos Acuda, novela seguinte de Sílvio de Abreu.

 3 – A abertura e a trilha sonora

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Uma das melhores aberturas de novela tem um casamento perfeito com a música “Me chama que eu vou”, de Sidney Magal. A vinheta é uma das mais lembradas pelo público e deu todo um clima à história. A trilha sonora é um destaque a parte, com canções inesquecíveis como “Foi Assim”, de Vanderléia, tema de Maria do Carmo com Edu (Tony Ramos), e Coração Pirata, do Roupa Nova, que também embalou a protagonista.

 4 – Uma vilã inesquecível

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Laurinha Figueroa, interpretada por uma Glória Menezes charmosa e antipática na medida certa, foi a grande vilã da carreira da atriz, e uma das maiores da história das novelas. O final imortalizou Laurinha, com uma das cenas mais faladas da TV.

 5 – O melodrama bem costurado

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A trajetória de Maria do Carmo, e a história policial que vai se formando,  levam Rainha da Sucata a ser um melodrama assumido e muito bem estruturado. Sem grandes invenções, o autor conseguiu segurar o púbico, evitando deixar a novela pra baixo. Novelão tradicional dos melhores.

O que esperar das próximas novelas da Globo

Com as audiências das atuais novelas distantes da meta, a Rede Globo, e o público, guardam suas esperanças para as próximas. Baseado nos históricos dos envolvidos nas produções, confira o que esperar, e o que não esperar, das futuras estreias.

Próxima das seis: Flor do Caribe, com autoria de Walther Negrão e direção de Jayme Monjardim, a novela promete ser uma nova Tropicaliente, do mesmo autor. Com previsão de estreia para março, a novela conta a história de amor entre Cassiano (Henri Castelli) e Ester (Grazi Massafera), dois jovens que se conheceram na infância, na fictícia Vila dos Ventos. Ela é guia turística que faz passeios de bugre pelas praias do lugar e ele é um piloto de caça da Aeronáutica. O par, porém, sofrerá com as armações de  Alberto (Igor Rickli), que também cresceu com os dois, e fará de tudo para conquistar Ester.

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Prós: Negrão é um dos autores que melhor sabe escrever para o horário e foi responsável por grandes sucessos. A faixa está mesmo precisando de um trama solar, que conquiste os jovens e cause alguma repercussão.

Contras: A direção de Jayme Monjardim pode deixar lenta uma trama que precisa ser dinâmica e ensolarada, como foi Tropicaliente. O romance quente dos protagonistas pode ter como pano de fundo um céu roxo ou um sol mais laranja do que necessário.

Próxima das sete: Sangue Bom, de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari com direção de Denis Carvalho. Prevista para começar em abril, a novela vai girar em torno da diferença entre “ter e ser”. Amora (Sophie Charlotte)“tem” e Beto (Marco Pigossi) “é”. Ela é uma jovem que adora fazer compras e que vai acabar virando a apresentadora de um programa sobre celebridades, substituindo Lara Keller (Maria Helena Chira), que entrará de licença.

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Prós: A autora foi responsável por Tititi, uma das melhores novelas das sete dos últimos tempos, e promete voltar com o mesmo clima. Não precisa de mais nada.

Contras: Dennis Carvalho não dirige comédia como Jorge Fernando e os protagonistas são Sophie Charlotte e Marco Pigossi, que não são ruins, mas estão um pouco crus para a função.

Próxima das oito: Em Nome do Pai ou Em Nome do Filho. Amém. Seja qual for o nome da novela, ela será escrita por Walcyr Carrasco e terá a direção geral de Wolf Maya. Ainda não há muita coisa definida, nem o título, na trama prevista para começar em maio. O que parece certo é que dois irmãos, interpretados por Paola Oliveira e Mateus Solano, vão disputar a administração do hospital do pai, vivido por Antônio Fafundes. A personagem de Paola ainda sofrerá com o desaparecimento de um filho ou uma filha e acabará se apaixonando pelo homem que adotou a criança.

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Prós: Estreante às nove, Walcyr levará o seu estilo e um novo universo para o horário.

Contras: Estreante às nove, Walcyr levará o seu estilo e um novo universo para o horário. Ah, e as escalações de Wolf Maya nunca são das melhores

5 motivos que não salvam Salve Jorge

Há quase três meses, eu falei aqui no blog sobre Salve Jorge, que na época tinha acabado de estrear. Eu disse que era cedo para falar da novela propriamente dita e acabei ficando este tempo sem postar. Agora retorno de onde parei, expondo os 5 principais pontos que, na minha opinião, impedem a novela de Glória Perez de ter repercussão e audiência maior, embora ela tenha melhorado cerca de 5% desde o início. Confira:

1 – Rodrigo Lombardi

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O ator nunca encontrou o tom do seu personagem e Glória Perez também tem uma parcela de culpa nisso. A autora colou o protagonista em situações bizarras e exageradas, como ser o herói em um assalto, e deu-lhe diálogos tão açucarados que são capazes de matar um diabético. Com isso, o casal central, embora não sofra rejeição, não chega a encantar o público, que não torce, apenas assiste. Vale abrir parênteses para dizer que, ao contrário de seu par, Nanda Costa revelou-se uma escolha acertada e hoje é difícil imaginar outra atriz para o papel.

2 – As situações forçadas

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Tudo que bem que, para embarcar em uma ficção, é preciso boa vontade muitas vezes. O público já se acostumou, por exemplo, que, em uma novela de Glória Perez, seja qual for o país, a língua usada é sempre o português, até porque seria inviável ter legenda em grande parte das cenas, afastaria o telespectador. Salve Jorge, porém, tem exigido um carinho extra do público. As situações pelas quais Morena passa, como trancar Irina e ninguém desconfiar de onde ela estava e vir pro Brasil e encontrar a família para depois voltar, e a forma como essas situações são expostas destoam da proposta da novela de mostrar esta realidade, inclusive com depoimentos.

3 – A superpopulação

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Ninguém sabe ao certo quantos personagens a novela tem, é um número que talvez nunca seja revelado. Mais grave do que a quantidade é a qualidade dessas tramas paralelas, a grande maioria delas até agora não disse a que veio. Aliás, praticamente nada de relevante aconteceu até hoje com os personagens secundários. Não há uma história forte de humor, nenhum personagem caiu no gosto popular, e o drama é raso, ainda não conseguiu envolver o telespectador. Nem personagens importantes, como a de Flávia Alessandra, conseguiram deixar claro quais são as suas funções na história.

4 – A vilã apática

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Por enquanto, a vilã da novela é a Wanda, interpretada com maestria por Totia Meirelles, a melhor coisa da novela até o momento. A Lívia, de Claudia Raia, está tão apagada que mal foi citada no grupo de discussões. A vilã não teve grande embates com ninguém e vive de manter as aparências. Há promessas de que as coisas vão esquentar, mas, por enquanto,  se ela sumisse de um capítulo para o outro, ninguém sentiria falra.

5 – A Turquia

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Depois de duas culturas exóticas (O Clone e Caminho das Índias), o telespectador cansou de viajar e tudo o que quer é se ver em um bairro de alguma cidade brasileira. Fora a “estadia” de Morena por lá, e o núcleo da boate, as outras cenas no exterior servem como intervalo para o telespectador ir ao banheiro. Parece que a novela entra em outra época e o público acaba não se envolvendo com as tramas daqui e nem com as de lá. Um terremoto seria providencial para eliminar a grande parte do elenco que vive na Turquia. E não seria a primeira vez deste desastre natural em uma novela.

A dura missão de Salve Jorge

Salve Jorge, a nova novela das nove, talvez seja a produção que mais carmas carrega mesmo antes de ter começado. A trama estreou no primeiro dia útil do horário de verão, na última semana de propaganda política obrigatória nas maiores cidades do país, e, o pior de tudo, logo depois de um dos maiores fenômenos de repercussão dos últimos tempos. Ou seja: além de enfrentar complicadores que já fazem a audiência cair naturalmente, Salve Jorge ainda tem a dura missão de conquistar os órfãos de Avenida Brasil.

A trama de Gloria Perez é quase o oposto da novela de João Emanuel Carneiro: enquanto ele tirou o foco dos casais românticos e fez uma novela com cara de filme, ela historicamente aposta forte em seus pares centrais e é a mais folhetinesca de nossos autores. Discípula de Janete Clair, Glória sabe estruturar uma novela como ninguém, embora nas últimas tramas tenha caído na armadilha de criar pontos de apoio que levam suas novelas a, mais do que terem sua marca, ficarem com uma cara muito parecida, o que também causa preconceito em certa parcela do público.

Ainda é cedo pra comentar a novela propriamente dita, mas ela revelou-se cheia de boas possibilidades em sua estreia. O público deve estranhar o texto mais didático e ainda demorar algum tempo para tirar o luto por Avenida Brasil, mas dificilmente Glória Perez não consegue reverter problemas com suas produções. A autora é mestre em ir conquistando o público aos poucos com suas tramas, e as chances de conseguir isso novamente são grandes.

 

O golaço de Avenida Brasil

Durante a exibição do último capítulo de Avenida Brasil, as ruas estavam vazias e os comentários durante o dia, nas redes sociais e nos trabalhos, eram majoritariamente destinados à produção. O cenário contraria as previsões que surgem de tempos em tempos de que as telenovelas estão no fim. Produções como Avenida Brasil aparecem para quebrar essa prerrogativa e renovar o entusiasmo pelo gênero. A novela foi um fenômeno de repercussão graças à direção competente, que não quis aparecer mais do que a trama e contribuiu para que ela fosse contada, e ao talento de João Emanuel Carneiro, que além de ter conduzido sua história de forma magistral, soube mostrar a classe C da maneira que ela queria ser vista.

Do elenco, é difícil tirar um caso de atuação que não tenha dado certo. Adriana Esteves, que já passou por momentos difíceis e injustos na carreira, consagrou-se definitivamente como a visceral atriz que é. Débora Falabella, que tinha o papel mais difícil da história, soube ficar no limite com sua Nina, embora em alguns momentos ela tenha ultrapassado levemente a linha que deixava a protagonista chata. O papel de mala coube mesmo a Cauã Reymond e seu Jorginho, mas o tropeço foi mais nas atitudes do personagem do que da atuação. Em certa fase da história, ele praticamente só aparecia chorando e questionando as coisas.

Com Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro conseguiu, em certo ponto da história, melhorar uma deficiência que já apresentou em outros trabalhos: um abismo que coloca entre a as tramas paralelas e a central. Principalmente no  começo, o núcleo Cadinho causava certo incômodo quando surgia, pois parecia atrapalhar a história principal. Com o tempo, essas “intervenções” foram ficando menos bruscas e chegaram a ser sanadas quando todo o núcleo foi parar no Divino. E falando em Divino, nunca um bairro foi tão emblemático em uma história, tornando-se praticamente uma entidade. Não foi à toa que a inesperada última cena contou com um jogo com os craques do local.

A novela apresentou alguns furos, como a história das fotos que Nina perdeu, e a virada que quase demorou mais do que deveria para acontecer, mas aí o público já estava tão integrado à história, que esses acontecimentos viraram apenas detalhes. A qualidade da narrativa apresentada pelo autor, e valorizada pela direção cuidadosa além do habitual, levou o telespectador a repercutir os acontecimentos e personagens também nas redes sociais, foi até hoje a novela que mais discussões e brincadeiras incitou nestas plataformas, mais uma vitória inquestionável. Ontem, quando na última cena Adalto marcou o gol, o público vibrou junto, torceu, e aí a novela fechou sua trajetória com chave de ouro, cumprindo a principal missão do gênero: entreter e repercutir no dia seguinte. E aí, mais uma vez, coisas como a mudança um pouco brusca de Carminha no final, viraram apenas detalhes. No conjunto, a vitória foi enorme. Um golaço.