Arquivo do mês: maio 2013

O turbulento voo de Salve Jorge

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Salve Jorge estreou há aproximadamente sete meses com alguns obstáculos: o horário de verão, a última semana da propaganda política obrigatória nas grandes cidades, e, o mais grave, o fenômeno de repercussão de Avenida Brasil, novela anterior, com a qual foi constantemente comparada. A trama de Gloria Perez tinha a difícil missão de manter o sucesso da novela de João Emanuel Carneiro. Não conseguiu.

O problema é que Salve Jorge foi quase o oposto daquilo apresentado em Avenida Brasil: teve excesso de personagens, ausência de figuras carismáticas e uma vilã fraca, entre outros inúmeros tropeços. Para ver Salve Jorge era preciso voar, como a autora chegou a dizer algumas vezes no Twitter. Mas, para o público voar, é preciso primeiro conquistar a cumplicidade dele, coisa que Salve Jorge nunca teve. Quando o público assiste algo que tem realismo fantástico, ele sabe que vai se deparar com situações absurdas e está preparado para que aquilo aconteça. Ele até deixa passar um ou outro deslize em tramas ditas realistas (como Nina não ter guardado as fotos de Carminha em um pen drive, em Avenida Brasil), mas Salve Jorge foi uma chuva de incoerências (uma igreja virou um point 24 horas, a vilã mata com uma seringada no meio de uma festa e ninguém percebe, uma traficada jurada de morte pela máfia circula pelas ruas para pegar informações, só para citar alguns). Quando uma autora precisa usar as redes sociais para justificar os furos do roteiro de uma trama é porque a coisa não está legal. Para ver Salve Jorge era preciso voar em um foguete, apenas os balões da Turquia não eram suficientes.

Foi o país asiático que teve as tramas mais prejudicadas quando a audiência da novela ficou abaixo do esperado. O núcleo turco praticamente sumiu (junto com dezenas de personagens brasileiros), as músicas turcas foram reduzidas (um CD só com estas músicas seria lançado, mas foi cancelado) e muito pouco do país foi mostrado. O público já estava enjoado das viagens, nos dois sentidos, da autora (os costumes lembravam muito o dos países retratados em O Clone e Caminho das Índias). Mas não foi só o texto que deixou a desejar, a direção matou algumas cenas que podiam render mais e a edição foi uma das piores já feitas na Rede Globo, cheia de cortes grosseiros e trilhas fora do lugar, sem contar os erros básicos de continuidade. Salve Jorge acabou caindo na boca do povo, mas por suas incoerências, tornando-se uma novela que os telespectadores amaram odiar.

Um dos maiores (e poucos) acertos da produção foi a escalação de Nanda Costa, que causou estranhamento no início. A atriz conseguiu segurar bem o seu papel de mocinha suburbana e “engoliu” aquele que deveria ser o galã da história. Rodrigo Lombardi, mais pelo do texto do que por sua atuação, construiu um Théo que beirou o insuportável. Mas o maior pecado de Salve Jorge foram os desperdícios: de talentos (Natália do Vale, Nicette Bruno, André Goncalves…), causado pelo excesso de personagens e de histórias que não se entrelaçaram, e de uma trama central que tinha tudo para render muito mais, não fosse recheada de momentos surreais. Com tantos tropeços, nem o guerreiro São Jorge conseguiu salvar a novela, que termina com uma das menores audiências entre as atrações do horário.