Arquivo do mês: outubro 2012

A dura missão de Salve Jorge

Salve Jorge, a nova novela das nove, talvez seja a produção que mais carmas carrega mesmo antes de ter começado. A trama estreou no primeiro dia útil do horário de verão, na última semana de propaganda política obrigatória nas maiores cidades do país, e, o pior de tudo, logo depois de um dos maiores fenômenos de repercussão dos últimos tempos. Ou seja: além de enfrentar complicadores que já fazem a audiência cair naturalmente, Salve Jorge ainda tem a dura missão de conquistar os órfãos de Avenida Brasil.

A trama de Gloria Perez é quase o oposto da novela de João Emanuel Carneiro: enquanto ele tirou o foco dos casais românticos e fez uma novela com cara de filme, ela historicamente aposta forte em seus pares centrais e é a mais folhetinesca de nossos autores. Discípula de Janete Clair, Glória sabe estruturar uma novela como ninguém, embora nas últimas tramas tenha caído na armadilha de criar pontos de apoio que levam suas novelas a, mais do que terem sua marca, ficarem com uma cara muito parecida, o que também causa preconceito em certa parcela do público.

Ainda é cedo pra comentar a novela propriamente dita, mas ela revelou-se cheia de boas possibilidades em sua estreia. O público deve estranhar o texto mais didático e ainda demorar algum tempo para tirar o luto por Avenida Brasil, mas dificilmente Glória Perez não consegue reverter problemas com suas produções. A autora é mestre em ir conquistando o público aos poucos com suas tramas, e as chances de conseguir isso novamente são grandes.

 

O golaço de Avenida Brasil

Durante a exibição do último capítulo de Avenida Brasil, as ruas estavam vazias e os comentários durante o dia, nas redes sociais e nos trabalhos, eram majoritariamente destinados à produção. O cenário contraria as previsões que surgem de tempos em tempos de que as telenovelas estão no fim. Produções como Avenida Brasil aparecem para quebrar essa prerrogativa e renovar o entusiasmo pelo gênero. A novela foi um fenômeno de repercussão graças à direção competente, que não quis aparecer mais do que a trama e contribuiu para que ela fosse contada, e ao talento de João Emanuel Carneiro, que além de ter conduzido sua história de forma magistral, soube mostrar a classe C da maneira que ela queria ser vista.

Do elenco, é difícil tirar um caso de atuação que não tenha dado certo. Adriana Esteves, que já passou por momentos difíceis e injustos na carreira, consagrou-se definitivamente como a visceral atriz que é. Débora Falabella, que tinha o papel mais difícil da história, soube ficar no limite com sua Nina, embora em alguns momentos ela tenha ultrapassado levemente a linha que deixava a protagonista chata. O papel de mala coube mesmo a Cauã Reymond e seu Jorginho, mas o tropeço foi mais nas atitudes do personagem do que da atuação. Em certa fase da história, ele praticamente só aparecia chorando e questionando as coisas.

Com Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro conseguiu, em certo ponto da história, melhorar uma deficiência que já apresentou em outros trabalhos: um abismo que coloca entre a as tramas paralelas e a central. Principalmente no  começo, o núcleo Cadinho causava certo incômodo quando surgia, pois parecia atrapalhar a história principal. Com o tempo, essas “intervenções” foram ficando menos bruscas e chegaram a ser sanadas quando todo o núcleo foi parar no Divino. E falando em Divino, nunca um bairro foi tão emblemático em uma história, tornando-se praticamente uma entidade. Não foi à toa que a inesperada última cena contou com um jogo com os craques do local.

A novela apresentou alguns furos, como a história das fotos que Nina perdeu, e a virada que quase demorou mais do que deveria para acontecer, mas aí o público já estava tão integrado à história, que esses acontecimentos viraram apenas detalhes. A qualidade da narrativa apresentada pelo autor, e valorizada pela direção cuidadosa além do habitual, levou o telespectador a repercutir os acontecimentos e personagens também nas redes sociais, foi até hoje a novela que mais discussões e brincadeiras incitou nestas plataformas, mais uma vitória inquestionável. Ontem, quando na última cena Adalto marcou o gol, o público vibrou junto, torceu, e aí a novela fechou sua trajetória com chave de ouro, cumprindo a principal missão do gênero: entreter e repercutir no dia seguinte. E aí, mais uma vez, coisas como a mudança um pouco brusca de Carminha no final, viraram apenas detalhes. No conjunto, a vitória foi enorme. Um golaço.

Avenida Brasil termina com repercussão recorde

 

Com uma trama bem amarrada, aliada a uma direção que valorizou a história em cada take, Avenida Brasil conquistou uma repercussão que há muito tempo não se via. Fina Estampa, com alguns décimos de audiência a mais que a trama de João Emanuel Carneiro, passou longe do que a novela atual conseguiu: aliar sucesso de público e crítica, levando todos a comentarem os acontecimentos da história no dia seguinte. O último capítulo, que será exibido amanhã, é aguardado com ansiedade e repercute de várias maneiras.  O grande sucesso de uma novela é evidente quando (clique nos links e leia as matérias completas):

A presidente precisa desmarcar um comício que seria realizado na hora da trama.

A Justiça Eleitoral precisa impedir que um candidato exiba o último capítulo em um telão antes de seu comício.

O Operador Nacional do Sistema de energia teme que um apagão aconteça após o último capítulo.

–  As pessoas param para assistir os capítulos na rua.

Casas noturnas se programam para exibir o capítulo final.

Avenida Brasil dura uma semana além do que deveria

 

Com Carminha desmascarada e expulsa da mansão na semana passada, a trama principal de Avenida Brasil praticamente se resolveu e chegou a um impasse: com alguns capítulos pela frente, o que ainda faltava acontecer? A resposta veio com o assassinato de Max, em cenas muito bem produzidas, e a revelação de Santiago como um grande vilão.

Até a morte de Max, a novela foi eletrizante, mas a história caiu muito após o acontecimento. Com Carminha sem ter como agir, e suas atitudes sempre foram a graça da novela, o grande assunto da trama passou a ser os possíveis suspeitos de terem matado o gigolô. O crime, que levantou a reta final de muitas tramas, ainda não chama mais a atenção do que a curiosidade com o destino da personagem de Adriana Esteves.

Com Santiago tomando as rédeas da vilania, começou praticamente uma outra novela, com outro vilão, com outro plano mirabolante… Não compromete o sucesso de Avenida Brasil, mas tira um pouco do brilho de sua última semana. O passado de Carminha pode ser importante para explicar suas atitudes, mas nada que não pudesse ser apresentado em um ou dois capítulos. Com o embate entre Nina e Carminha fervendo a novela inteira, o que menos interessa agora é conhecer as aspirações desse tal de Santiago.

Balacobaco mira no fácil mas acaba se distanciando do público do horário

Após o fracasso de Máscaras, a Record resolveu não arriscar e apostou em Balacobaco, uma trama popular, leve e divertida (essa parte ela ainda está devendo), porém distante daquilo que os telespectadores do horário estão acostumados. Os maiores sucessos conquistados por novelas fora da Globo tarde da noite foram por meio de tramas densas, como Pantanal e Xica da Silva. A própria Record, até Máscaras, tinha um público fiel, que gerava em torno de 15 pontos de audiência, com novelas como Vidas Opostas, Chamas da Vida e Vidas em Jogo. Ao investir em uma trama popular, achando que assim automaticamente conquistaria a classe C, a emissora esqueceu que o horário tem também um outro tipo de público, que acabou carente daquilo a que esperava.

Balacobaco é declaradamente over, do cenário ao figurino, passando por algumas interpretações e situações. É quase uma irmã gêmea de Bela, A Feia, da mesma Gisela Joras, que por sinal não deu tão certo assim. A autora parece ter se encantando com o gênero e esquecido que em sua primeira novela, Amor e Intrigas, destacou-se ao investir em uma trama tradicional.

O primeiro capítulo pecou pela falta de acontecimentos marcantes e por explicar o conflito principal sem empolgar, além de apostar em cenas bobas, como aquelas com os trambiques da personagem de Solange Couto. A novela, em seus primeiros dias, conseguiu ter uma audiência ainda pior do que sua antecessora, e é aí que entram uma série de fatores, como o mau momento que a Record vive como um todo; a fortíssima audiência e repercussão de Avenida Brasil em seus últimos capítulos, que não deixa espaço para nenhuma outra novela; e a falta de uma trama forte, que prenda o telespectador no meio de tantas situações exóticas que a autora propõe.

Apesar dos equívocos, Balacobaco tem produção e direção competentes, um elenco cheio de bons nomes, muito chão pela frente e capacidade para conquistar o público. Para tanto, basta fugir da popularização fácil e investir no público que logo mais estará sem Gabriela. Por enquanto, o balacobaco está só no nome e na dispensável musica de abertura.

Guerra dos Sexos não empolga nos primeiros capítulos

Com um elenco estrelar, coisa que Silvio de Abreu sempre consegue com facilidade, Guerra dos Sexos estreou com a promessa de ir além do remake. O autor disse em entrevistas de divulgação que apresentaria praticamente uma nova novela, mas as adaptações prometidas ficaram longe de serem realizadas na prática. Com algumas cenas quase idênticas à versão original, o primeiro capítulo trouxe inúmeras menções ao conflito homem versus mulher. A rivalidade hoje existe mais na brincadeira, o que tornam as atitudes de alguns personagens exageradas e datadas, deixando a novela toda com uma cara fora de época.

A direção sempre competente de Jorge Fernando até ajuda, dando uma modernizada no visual, mas outros aspectos, como a visão cheia de glamour que Silvio de Abreu tem de São Paulo e a trilha sonora típica das novelas do novelista, nos remetem novamente ao passado. Embora tenha sido um dos pais do gênero apresentado no horário das sete, o autor hoje faz uma comédia que não empolga. A trama tem ainda uma missão quase impossível, que é a de segurar o público de Cheias de Charme, uma novela que arrebatou as crianças. Guerra dos Sexos certamente não conquistará esse público, ou seja, precisa segurar o restante que ficou e ainda conquistar um novo nicho, que pode nem estar em casa neste horário. Só uma abertura infantilizada (e dá-lhe animação novamente) não é capaz de chamar a atenção dos menores.

O elenco, vindo em bando de Passione, não decepciona, embora eu ache que faça falta uma figura exótica como a de Cláudia Raia, que até estava escalada, mas depois saiu. É cedo pra dizer, mas a percepção é de que a novela precisa ter um tom a mais, e aí Jorge Fernando pode tomar como exemplo o que fez em Tititi, que brincou e se reinventou sem medo. A impressão é de que o autor teve receio de mudar muito e descaracterizar a sua obra. De qualquer forma, a novela ainda está apenas na sua primeira semana e  pode engrenar naturalmente ou se adaptar às percepções do público. O perigo é que o autor já tem quase 80 capítulos prontos, um erro fatal que até os  mais experientes comentem vez ou outra.

A recepção do público aos primeiros capítulos foi morna. Guerra dos Sexos teve a pior estreia do horário, 29 pontos, e caiu ainda mais ao longo da semana. As eleições podem ter prejudico, assim como provocaram uma queda nos últimos capítulos de Cheias de Charme, e ainda vem aí o horário de verão. Os tempos realmente são outros e a guerra dessa vez será pela audiência.

Máscaras chega ao fim sem encontrar seu público

Lauro Cesar Muniz estava cheio de boas intenções para aquela que diz ser sua última novela. Máscaras foi construída para se afastar do convencional, das soluções usuais e dos personagens estereotipados. O autor tentou tanto fugir do fácil que colocou no ar uma novela muito difícil. Além de ter uma história que se enrolou, a novela contava com personagens que abusaram das máscaras e se distanciaram do público. Aliado a isso, esteve o grave problema da direção, com fotografias e cenários horríveis, que só pioraram a visão que o telespectador teve da novela.

Máscaras construiu uma trama tão intrincada no início, que os ajustes realizados não surtiram efeito. A direção foi trocada, e melhorou consideravelmente, a fotografia ganhou qualidade indiscutível, mas a história não tinha mais conserto aos olhos do público. E é claro que a grande repercussão do fracasso inicial também atrapalhou um pouco.

Lauro César Muniz nunca foi um autor fácil e a Máscaras que foi ao ar inicialmente não foi a novela que ele imaginou, mas também não foi o que o público queria e conseguia ver. Atire a primeira pedra quem entendeu perfeitamente a trama, que poucos ousaram acompanhar do início ao fim. O autor foi mais hábil em Poder Paralelo, que também tinha seus mistérios típicos, mas não tantos e da forma sufocante como a utilizada em Máscaras.

O último capítulo contou com os tiroteios de sempre, mas com uma passagem curiosa: um dos mais belos textos já recitados sobre o ofício do ator. Dito por Paloma Duarte, que saiu da personagem para voltar em seguida, Máscaras homenageou aqueles que a defenderam em um carta de amor no meio da novela e também aqueles que a acompanharam. Ali, por um breve momento, a novela se fez entender, mostrou que nem sempre boas intenções resultam em bons resultados, e nos lembrou que Lauro Cesar Muniz erra, como já erraram todos os outros grandes autores.