Arquivo do mês: outubro 2011

O Astro revela futuro promissor

Chamar O Astro de qualquer outra coisa que não novela é uma das maiores injustiças que um veículo poderá cometer ao recordar a trama. Com 64 capítulos, ela foi mais novela do que muita obra por aí, e nunca teve vergonha de se assumir assim. Assistir a história adaptada por Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro foi um exercício de entrega diário, de como não se prender aos detalhes e embarcar no sonho. Propositalmente carregada nas tintas, O Astro teve cara de novelão dos anos 70, conseguiu resgatar características marcantes daquela época e mesmo assim ser moderna e atual. Cheia de referências e com uma pegada de série, a trama inaugurou o horário das onze com louvor.

A quantidade reduzida de capítulos foi o maior trunfo do projeto, mas foi também sua maior dificuldade. Exibida quatro vezes na semana, e com poucos minutos de arte, O Astro precisou acelerar tramas e cortar cenas. Alguns momentos aconteceram rápido demais, dificultando o envolvimento do telespectador com determinadas situações e personagens.

Em seu último capítulo, O Astro revelou o primeiro assassinato coletivo da história da teledramaturgia, com quatro pessoas envolvidas na morte de Salomão Hayala. A culpa era do irmão vingativo, era do mordomo, mas era principalmente daquela que brilhou do começo ao fim da história. Com uma interpretação polêmica, mas que caiu com uma luva ao que a novela propunha, Regina Duarte foi merecidamente presenteada ao ser a assassina. Ela ainda teve direito a carão final para o telespectador. Humberto Martins, Marco Rica, Carolina Ferraz no auge da sua beleza, e Rosamaria Murinho também brilharam. Tia Magda foi protagonista de cenas delicadíssimas, como a do seu suicídio, a mais bela do capítulo final.

O Astro sai de cena deixando um novo caminho para a teledramaturgia e a lição de que é possível se modernizar sem renegar o passado, mas enaltecendo o que ele tem de melhor. A reedição da obra de Janete Clair foi mais do que uma homenagem aos 60 anos de telenovelas. Com tudo para ter sido uma ode ao passado, foi um pontapé para o futuro. No final das contas, os astros revelaram um caminho promissor para a telenovela brasileira. Uma homenagem e tanto.

Fina Estampa tropeça, mas audiência gosta

Em capítulo importante, no qual a vilã Tereza Cristina cometeu seu primeiro assassinato, a direção de Fina Estampa deixou a desejar. Pode não ser a única culpada, mas é grande responsável por ter tornado constrangedoras cenas que deveriam ter sido marcantes.

O queda da escada do mafioso que perseguia tia Íris, empurrado pela vilã, foi mal executada, e a cena toda estava fora do tom. O momento mais emocionante foi quando a personagem de Christiane Torloni agradeceu Nazaré Tedesco, vilã de Senhora do Destino e assassina das escadas. A menção à personagem de Renata Sorah serviu para três coisas:  mostrar como uma vilã bem construída se torna inesquecível (minutos após a cena, a frase já era um dos assuntos mais comentados do Twitter); constatar que Tereza Cristina nunca chegará aos pés da inimiga de Maria do Carmo (Suzana Vieira); e lamentar o papel insosso de Renata Sorah em Fina Estampa.

O capítulo teve média de 42 pontos, número que Insensato Coração conseguiu apenas em seus últimos capítulos. Alheio ao tom equivocado, o público quer mesmo é ver a vilã colocar a mão na massa.

Em tempo: No mesmo dia, foi ao ar o primeiro beijo de Claudia (Giovanna Antonelli) e Vicente (Ricaro Pereira) na novela Aquele Beijo. Tudo esteve na medida certa, da trilha sonora ao texto brilhante de Miguel Falabella. Foi dada a largada para um romance encantador, daqueles que estão fazendo falta nos demais horários.

Séries retornam para curta temporada

Com o fim de O Astro, na próxima sexta-feira, estão de volta à programação da Globo as séries A Mulher Invisível (terça), Força Tarefa (quinta) e Macho Man (sexta). Os programas retornam por pouco tempo, já que em dezembro começam os especiais de fim de ano. Com temporadas curtas, e sem época do ano certa para começar, as séries da emissora seguem um modelo de exibição que, se por um lado confere dinamismo à programação, por outro deixa algumas histórias sem chances de engrenar.

Com média de oito capítulos por temporada, determinadas séries mal conquistam o público e já saem do ar, em certos casos pra nunca mais voltar. Os Aspones, Guerra e Paz, O Sistema e Tudo Novo de Novo são exemplos de histórias que passaram tão rápido, que algumas nem são lembradas pelos telespectadores. Há situações em que o esquecimento é merecido. Como existe a possibilidade de testar muita coisa, acabam sendo exibidos programas que nunca deveriam ter ido ao ar. Em outros casos, séries de qualidade terminam sem tempo de serem compreendidas, ou de serem ajustadas. São raros os programas que conseguem uma temporada ininterrupta, como A Grande Famíla e Tapas e Beijos.

O fato é que o Brasil é o país das telenovelas , e ainda está aprendendo a fazer séries, se adaptando e buscando a melhor forma. Inúmeras coisas boas já foram exibidas, mas ainda há muito a ser feito. O formato com temporadas curtas tem suas vantagens, a emissora não se compromete por muito tempo com um produto que pode não dar certo, e há a possibilidade de testar vários enredos, mas sempre fica a sensação de algo incompleto, que poderia render mais. O país das telenovelas ainda tem muito a aprender, e há enorme potencial para isso. Os acertos estão aí para provar.

Maratona Vitoriosa

Tradição na tela do SBT, o Teleton novamente cumpriu sua meta e conseguiu arrecadar mais de R$26 milhões para a AACD. A maratona seguiu a fórmula de sempre, com artistas do canal se revezando durante mais de 24 horas com atores, cantores e contratados de outras emissoras. Com os momentos inusitados de sempre, o destaque ficou por conta de Hebe Camargo, que participou mesmo passando por um tratamento sério. Com boa vontade, a apresentadora mais uma vez mostrou porque é a primeira dama da televisão brasileira. Ela teve classe até ao aturar a fria recepção de Silvio Santos. O dono da emissora parece ter esquecido que perdeu a apresentadora porque não soube dar o valor necessário a ela.

Por sua duração, o Teleton não segue um roteiro engessado, deixando espaço para situações espontâneas. É essa característica que o deixa mais humano do que outros programas de doação, como o Criança Esperança. A campanha da Globo invente em números musicais, muitos deles parecidos com um jogral da escola da esquina. Ao apostar na emoção genuína,  a maratona do SBT se destaca, e ganha em emoção e repercussão.

Novos Velhos Conhecidos

Para promover as reprises das novelas da Globo, o canal a cabo Viva tem criado novos teasers, como o de Top Model, que volta ao ar em dezembro substituindo Vamp. Os vídeos, embora feitos para dar um ar de novidade, têm toda a pinta dos anos 80, desde as imagens até a locução. Se essa é a intenção do canal, ela é cumprida com louvor.

O teaser mais criativo até agora foi o de Roque Santeiro, que mostrou os personagens entrando em uma porta que representa o Viva. No vídeo que anuncia Barriga de Aluguel, a música de abertura da novela é tão forte que deixa as imagens como coadjuvantes. O teaser de Top Model foi o mais preguiçoso, dando a impressão de ter sido feito em qualquer programa básico de computador, e não faz jus ao clima da trama.

Errando ou acertando nos aperitivos, o canal tem agradado no prato principal. As reprises escolhidas são clássicos da teledramaturgia que há muito tempo o público esperava rever. O único equívoco até agora foi a escolha de Roque Santeiro no lugar de Vale Tudo. A trama do falso milagreiro não tem a repercussão da novela anterior, o que mostra que talvez o público prefira algo com cara mais contemporânea no horário. O erro deve ser corrigido na próxima reprise do horário, que será anunciada em um dos teasers que já estão virando marca registrada do canal.

A novo colorido das sete


Aquele Beijo estreou nesta segunda, e com ela todo o colorido característico das novelas de Miguel Falabella. Estão lá os personagens excêntricos, os bons diálogos e o humor peculiar daquele que ainda não teve uma novela com todo o sucesso que merece. Salsa e Merengue foi sua trama de maior audiência, porém não foi nenhum estouro. Mais escaldado com o gosto do público, principalmente após o fracasso de Negócio da China, Falabella manteve todas as suas marcas, porém atenuadas.

Uma novela está no caminho certo quando engrena seu casal principal, e Giovanna Antonelli e Ricardo Pereira conquistam o telespectador desde o primeiro segundo juntos. A trilha acertada e o clima charmoso que permeia os personagens contribuem para o êxito imediato. A narração, com frases que merecem ser anotadas, foi um achado do autor. Ao colocar situações e pensamentos em sua própria boca, Falabella evita cenas explicativas e a novela ganha dinamismo, embora nos primeiros capítulos a sensação seja de que não há pressa para contar a história. O que não é uma coisa ruim.

O Covil do Bagre, com seus tipos esquisitos, lembra as vizinhanças de outras obras do novelista, como o Beco da Baiuca, de A Lua Me Disse. Com a disputa pelo lugar, Aquele Beijo mostra que tem uma trama promissora, embora já vista em outras novelas. O diferencial será o olhar bem humorado do autor. Lá, além de viverem os tipos mais diferentes, a começar pelos nomes, também deve ser o local de maior movimento da trama. Falabella ainda circundou a história com situações que sempre ganham o telespectador, como a casa com as crianças abandonadas, garantindo espaço para o tradicional.

A abertura é um acerto, embora os beijos devessem ficar mais visíveis, e até a participação de Xuxa na música, o que a princípio pode ter causado estranhamento, caiu bem. A direção, comandada por Roberto Talma, contribui para o clima de comédia romântica sofisticada que a novela possui. Com um elenco impossível de citar um só destaque, Aquele Beijo tem tudo para dar a Miguel Falabella o grande sucesso que ele jamais teve como autor de novela. A vida às vezes comete injustiças que nem um narrador é capaz de explicar.

Pandemônio

Detentora dos direitos dos Jogos Pan-Americanos 2011, a Record está fazendo a Globo passar por momentos que a emissora carioca jamais imaginou. Sem poder entrevistar atletas na Vila Olímpica e sem imagens das provas, a emissora líder precisa tentar falar com os competidores em outro local, e já foi até acusada de pirataria. Enquanto isso, a Record demonstra que ainda tem muito o que aprender na cobertura de eventos esportivos de grande porte.

A transmissão do Pan de Guadalajara se mostrou exagerada ainda na divulgação. A Record impregnou seus programas com o assunto, com comentaristas invadindo novelas e até o reality A Fazenda em sua fase final. Os anúncios nos grandes veículos de comunicação mostraram os jornalistas da emissora em poses de atletas, e alguns narradores parecem ter levado a brincadeira a sério demais, abusam dos adjetivos e só faltam invadir o campo de prova, tamanho o entusiasmo. A repórter Adriana Araújo é uma das mais empolgadas, e tem dado um espetáculo à parte, especialmente à beira da piscina.  A jornalista já pediu abraço de atleta molhado e fez dois competidores comemorarem a vitória com ela, deixando-os visivelmente constrangidos.

Por outro lado, a Rede Globo ainda não aprendeu a se comportar sem os direitos de exibição. Tem dado pouca importância ao evento, às vezes até mesmo evitando pronunciar o nome Pan, e foi acusada de pirataria, ao supostamente exibir imagens sem autorização. Como não aceitou as gravações cedidas pela Record, com o logo da emissora, a Globo comprou takes de uma agência internacional. E é essa agência que a emissora agora culpa pelo erro. A Record não ficou satisfeita com a explicação, e reclamou publicamente, inclusive com editoriais em seus telejornais, coisa que parece ser especialidade do canal. Não fosse pelo orgulho da emissora líder em exibir imagens com o logo da rival, essa discussão nem existiria.

Fora a polêmica, a Rede Globo por enquanto não tem muito com o que se preocupar, a audiência do Pan não tem feito estragos, e segue morna. Certamente o evento de Guadalajara servirá de aprendizado para as duas emissoras. A Record, para se ajustar para futuras exibições deste nível, e a Globo para aprender a conviver com essa nova realidade, onde não pode exibir tudo o que quer, e tem que se virar com o pouco que tem.