Arquivo do mês: agosto 2011

Por aí…

Há alguns dias a ABC anunciou a oitava como a última temporada da série Desperate Housewives, mas fã que é fã custa a acreditar. Agora a confirmação está aí, alguns teasers já caíram na rede, e deixam claro que as aventuras de Susan, Gaby, Lynette e Bree estão chegando ao fim. Os primeiros vídeos funcionam bem, com uma retrospectiva de momentos marcantes da trama que deixam os espectadores com água na boca. Se por um lado há a tristeza pelo fim da série, por outro há o alento de saber que a história terá um fim digno, diferente de Brothers and Sisters. Na série dos Walkers, na dúvida da renovação, os produtores fizeram um final meio aberto meio fechado, que foi até bonitinho, mas poderia ser melhor. Deste mal, pelo menos Desperate Housewives não vai sofrer.

Saiu o primeiro teaser da próxima novela das 18h, A Vida da Gente. É simples, direto e marcante, e até dá vontade de assistir a história, o que não estava acontecendo pela sinopse divulgada até agora. O título definitivamente não é feliz, a trama principal não tem nada da vida da gente, e o logo é de doer. Juntos, lembram um finado programa que o Netinho (ex-Negritude) tinha na Record.

Uma estampa com conteúdo

Quando foram ao ar as primeiras chamadas de Fina Estampa, muitos disseram que era uma novela das 9 com cara de novela das 7. Após 5 capítulos, podemos ver que a nova trama de Aguinaldo Silva é uma novela das 9 com cara de novela, um folhetim rasgado, popular e solar, como há muito tempo não se via no horário. A protagonista é pobre e trabalha, a vilã tem fortes traços de comédia e nenhuma explosão ou seqüestro foi visto no primeiro capítulo, o que pode ter causado estranhamento no público, mas também o seduziu, já que a trama teve a melhor semana de estréia se comparada às duas antecessoras. Enquanto as últimas novelas eram frias, Fina Estampa é solar e colorida. Um grande mérito, e talvez o maior deles.

Lilia Cabral já nas primeiras cenas mostrou porque há muito tempo merecia essa protagonista. A atriz compôs Griselda no limite, não é exageradamente masculinizada mas revela traços duros.  Christiane Torloni repete bem o papel que sabe fazer melhor: a perua. Vamos ver como ela se sairá quando Tereza começar a fazer maldades pra valer. A atriz tem tudo para se destacar. Destaque esse que ficou com Marcelo Serrado nesses primeiros capítulos. Em papel inédito, o ator mostrou que arriscar e sair da mesmice faz bem.

Vale destacar também Arlete Salles, de volta às novelas em uma personagem bem popular, e Julia Lemmertz, segura no papel da mulher que quer engravidar aos 50. A trama da atriz, pelo pouco mostrado, terá um clima interessante, ajudado pela sempre eficiente Renata Sorrah. Dan Stulbach ainda precisa encontrar o tom de seu personagem para não deixar o casal que forma com Júlia cansativo.

Fina Estampa tem tudo para ser um grande sucesso, e Aguinaldo Silva parece ter acertado ao apostar no básico. Depois de duas tramas com muitos mistérios mas nenhuma emoção, uma protagonista do povo, embalada por um samba, dá um novo respiro ao horário. A estampa é bonita e o conteúdo promete a boa e velha novela.

 

 Em tempo

Fina Estampa tem a pior música de abertura da teledramaturgia. Popular, a novela precisava de uma canção que marcasse e desse o tom certo para a história de Griselda. Poucas músicas instrumentais deram certo na abertura de uma novela (A Favorita e Explode Coração, por exemplo). E para piorar, a vinheta é fria e distante, tudo o que Fina Estampa não é.

Gol de placa da ficção

Um barzinho exibiu num telão, uma balada também ia mostrar. Vários amigos deixaram pra sair mais tarde, e alguns correram pra chegar em casa a tempo. Não era final de copa do mundo, era o último capítulo da novela, mas o clima era o mesmo. As pessoas discutiram o final, levando nome de personagens e expressões ao topo das menções nas redes sociais. É a principal dramaturgia do país mostrando sua força. No país do futebol, audiência de novela costuma ser maior que a do jogo.

Visto como um gênero menor, criticada por suas repetições (que acontecem em todas as ficções), a telenovela é uma velha conhecida que não é tratada com o devido respeito. Menosprezada por “intelectuais”, as novelas da TV lançam moda, criam expressões, colocam temas importantes em debate e para muitos é sua única forma de entretenimento.

Cada vez que o último capítulo de uma novela das 21 horas é exibido, vemos o alcance e a importância que o gênero tem no país. Aqui, os melhores autores estão na TV e os atores só ganham status nela, que é também uma vitrine que coloca em voga temas essenciais para o país. Se revermos tramas dos anos 70, 80 e 90 iremos compreender a moda da época, o jeito de falar e o que acontecia naquele momento. Novelas são espelhos de seu período de exibição.

Como no futebol, temos vários técnicos pronto para opinar sobre personagens e tramas, e não faltam sugestões para os enredos. Como no futebol, os autores sofrem com as criticas, e tem sempre alguém com uma solução melhor. O pais que tem os maiores craques e faz bonito em campo gosta mesmo é de saber quais serão as cenas do próximo capítulo.

 

Insensato Coração?

Amanhã chega ao fim Insensato Coração, a terceira novela seguida do horário nobre feita pra dormir (as anteriores foram Viver a Vida e Passione). É inegável o talento de Gilberto Braga e Ricardo Linhares para bolar ótimas histórias, diálogos ricos e vilões memoráveis, mas em Insensato Coração, assim como em Paraíso Tropical, eles perderam a mão. Os novelistas têm um grave defeito: o par central de suas tramas é sempre meloso e ético demais, estão aí Pedro e Marina que não me deixam mentir. O primeiro parece ter passado a novela inteira dopado, já ela não tinha a força necessária para interpretar a protagonista. Juntos, um desastre. E esse foi apenas um dos problemas.

Gabriel Braga Nunes não tinha o charme que precisava para contar a história de Leo, um sedutor nato, e muito menos química com Gloria Pires. Norma, aliás, esteve envolvida no principal tropeço de Insensato Coração: a falta de ritmo. A personagem demorou pra engrenar, e a partir do instante em que saiu da cadeia, as coisas começaram a ser meio corridas, para no fim resultar em uma das vinganças mais patéticas da história da teledramaturgia. Leo foi um vilão sem causa, destaque mais pelo talento do intérprete do que pelo personagem em si, e Norma nunca chegou a ser o que poderia ter sido.

Com as tramas principais problemáticas, a novela foi ancorada pelos personagens secundários, com destaque para Tina Nenê, Douglas e Bibi, Cortez, Natalie e Eunice, esta última dona dos melhores diálogos de Gilberto. Outro destaque foi a abordagem da homofobia, forte na medida certa, com a exibição da criticada cena do assassinato de um gay.

Os acertos foram poucos e pequenos perto do marasmo de personagens importantes, como Raul, Carol e André, atores corretos em personagens que não empolgaram. Insensato Coração foi assim: certinha demais com emoção de menos. Gilberto Braga, que tem mania de sinopses enormes, de tanto que calcula suas tramas acaba perdendo em espontaneidade, o que fez Insensato Coração não honrar seu título. No final das contas, faltou insensatez.

Em seu lugar

As chamadas de Fina Estampa nos deixam a impressão de que em poucos dias teremos no horário nobre uma novela como há muito tempo não se via: popular e folhetinesca como as boas tramas devem ser. A estreia da obra de Aguinaldo Silva também ficará marcada como a data em que a Rede Globo finalmente irá corrigir uma injustiça histórica: pela primeira vez, aos 54 anos e 30 de carreira na televisão, Lilia Cabral viverá uma protagonista de novela.

A atriz é dona de uma carreira única, construída degrau a degrau, sem nunca ter se envolvido em escândalos ou exposto sua vida particular. Premiada no teatro, Lilia se fez notar na televisão inicialmente pelos tipos cômicos, e foi através das novelas de Manoel Carlos, seu maior parceiro no veículo, que mostrou que também tinha uma enorme veia dramática. Foi, aliás, em uma trama do novelista, História de Amor, de 1995, que Lilia teve seu melhor papel na televisão até agora: a médica Sheila, que enlouquecia de amor pelo ex-noivo Carlos (José Mayer). Mas a grande virada da atriz veio mesmo em 2006, com Páginas da Vida, também de Manoel Carlos, onde deu vida à vilã Marta, tida por muitos como seu melhor trabalho. A partir daí veio a consagração com o filme e a série Divã, que alçaram Lilia definitivamente ao status de estrela.

A justiça será feita pelas mãos de Aguinaldo Silva, que sabe como ninguém escrever sobre, e para, o povo. É através dele que o horário das 21 horas deixará para trás a repetição de atores nos papeis principais ou apostas em novatos que deixam a desejar, e apostará no diferente. A própria atriz já chegou a declarar que não esperava protagonizar uma novela. Pelo pouco já visto nas chamadas, parece que a parceria vai dar samba. Lilia Cabral, que já roubou a cena inúmeras vezes mas nunca foi o primeiro nome de uma trama, terá seu merecido reconhecimento. E o horário nobre, se Aguinaldo entregar o que tem prometido, o sucesso e a popularidade que deixou de ter há algum tempo.

Precisava tanto?

Há alguns anos fiz um trabalho de conclusão de curso sobre a telenovela que analisava o fato das tramas brasileiras serem uma obra aberta, diferente do que acontece em muitos países. Conversei com alguns autores na época, entre eles Walcyr Carrasco pelo orkut. Eu queria que ele falasse sobre A Padroeira e Esperança, obras que sofreram muitas mudanças em função da baixa audiência inicial. O autor preferiu não comentar sobre as novelas porque, segundo ele, foram duas obras que envolveram muitas questões pessoais, e ainda me alertou para o fato de que os jornalistas costumam exagerar na questão da telenovela como uma obra aberta. Sempre achei estranho ler isso do Walcyr, sendo ele, na minha opinião, o autor que mais mexe em suas histórias quando elas estão mal das pernas. Morde & Assopra, que chegou a ter o titulo provisório de Dinossauros e Robôs, tem as figuras em sua abertura, mas hoje não tem quase nada de robô e muito menos de dinossauro.

Não há como negar que a novela melhorou, passou a apostar em tramas mais humanas, tocando o público e eliminando os excessos, mas para isso houve uma clara descaracterização da ideia central.  Algumas mudanças vieram em boa hora, tocaram fundo nas repetições típicas de Walcyr, e podem até ter servido como uma lição para o autor. O público não se identificou muito com o jogo de gato e rato do casal central e nem com o núcleo rural tão presente nas histórias do novelista. Resultado: Marcos Pasquim teve sua participação drasticamente reduzida e o núcleo caipira praticamente sumiu da história. Pasquim não vinha bem mesmo e os caipiras de Walcyr já estavam saturados há muito tempo. Todo autor se repete, mas a renovação é necessária.

O fato de ser uma obra mutável faz da telenovela brasileira um produto único, fascinante, mas é preciso tomar cuidado para não descaracterizar a história e desrespeitar personagens e atores. Em As Filhas da Mãe, Silvio de Abreu, em consenso com a Rede Globo, preferiu encurtar a trama do que fazer mudanças que iriam fugir totalmente do projeto idealizado. Walcyr sempre aposta nas mudanças, e dessa vez se deu bem,  já que a audiência subiu, mas para isso precisou afastar a trama da proposta inicial, eliminar personagens sem muitas justificativas e quase desaparecer com outros. Não sei que caso é pior e mais desrespeitoso com os atores: mantê-los para aparecerem uma vez na vida e outra na morte, caso de Cissa Guimarães e Susy Rego, ou eliminá-los sem dó.

Mudar uma trama e aproximá-la do público é necessário e faz parte da alma das novelas brasileras, mas é preciso cuidado para não acabar criando uma segunda novela. Morde & Assopra tem algumas tramas interessantes e bons atores, apesar do dialogo infantil e de certos personagens e situações excessivamente inocentes, e Walcyr Carrasco soube aproveitar as intervenções para valorizar o que de melhor tinha sua trama, mas pagou um preço alto por isso. Lá na frente, quando lembrarmos da novela, se lembrarmos, não a veremos como uma história homogênea. Quando as mudanças são muito grandes, a novela perde um pouco de sua identidade. Essa pelo menos se salvou do grande mico de ter o nome de Dinossauros e Robôs. Não que o titulo que levou seja uma maravilha.

A discussão errada

A Globo exibiu essa semana a morte do homossexual Gilvan (Miguel Roncato), assassinado a pauladas pelo homofóbico Vinicius (Thiago Martins), na novela Insensato Coração. Uma cena forte, verdadeira, que fez bem à temperatura morna da novela, que já teve diálogos sobre homofobia cortadas pela Rede Globo. Logo após a exibição da cena, surgiram algumas manifestações nas redes sociais de pessoas revoltadas com a violência mostrada. A justificativa era de que a emissora não exibe o beijo gay mas colocou no ar uma cena daquelas.

O beijo gay é uma cena que o grande público não quer ver, informação baseada em pesquisas que a Globo, a Record e o SBT têm. Esse ano a emissora de Silvio Santos exibiu um beijo lésbico na novela Amor e Revolução, e pretendia exibir um beijo entre homens nos próximos meses. Na primeira pesquisa qualitativa da trama, o público rejeitou o beijo que já tinha ido ao ar, e o próximo acabou sendo cancelado. Em outros países, até mesmo da América Latina, o beijo gay é coisa normal, mas aqui ainda há uma aversão. Em uma das pesquisas, a maioria dos entrevistados disse prefere ver um beijo entre pessoas do mesmo sexo pessoalmente do que na televisão. As emissoras são empresas e pensam na opinião do público, que é desde o empresário da capital até aquele bóia-fria lá dos mais distantes interiores.

É consenso e importante que uma hora o tão falado beijo saia para que as pessoas possam conviver com isso de forma mais pacífica, até para que deixe de ser essa polêmica, o que dá ainda mais força ao assunto. Enquanto ele não pode ser exibido, não é saudável que nossos autores encontrem outra forma de discutir e abordar a homossexualidade? Ricardo Linhares e Gilberto Braga foram os autores que trataram de forma mais aberta a homofobia. A violência está aí, e as novelas retratam a realidade, são um espelho do que acontece na sociedade em sua época de exibição. A cena foi ao ar justamente para gerar discussão e atenção para um assunto importante e atual, e não para virar um debate sobre a validade de sua exibição. Dizer que a  morte não deveria ter sido exibida é o mesmo que incentivar o moralismo que impede que o beijo gay vá ao ar.

 

Ainda sobre censura…

Está mesmo confirmada a reprise de Mulheres de Areia, e sobre essa escolha falarei depois, mas junto com ela veio a notícia de que o Ministério censurou a abertura da novela, uma vinheta que já foi exibidas às 18 horas em 1993, há quase 20 anos, e reprisada às 14 horas em 1996. Hoje, a cena não pode ser exibida na parte da tarde, o que obrigará a Rede Globo a utilizar recursos gráficos para esconder o seio da atriz Monica Carvalho. Um retrocesso sem fim. Está mais do que na hora das emissoras do país se reunirem e terem uma conversa sério com o governo. Confira no vídeo a “escandalosa” abertura da novela.